Além do gosto pelas palavras e dedos dos pés irremediavelmente tortos, herdei de minha mãe um forte traço pessoal: a preferência pela companhia masculina. “Moleque” desde criança – quando adquiri o reprovável hábito de deformar minhas bonecas e um vocabulário de estivador refinado nos muitos torneios (vitoriosos, que fique claro) de totó – fui rumando, a vida inteira, para um convívio masculino. Tanto no lado pessoal – conto minhas amigas mulheres no dedo (sendo que as que eu gosto conto em dois) – quanto no profissional, tendo eu decidido que minha carreira seria com esportes. Amigos, lazer e profissão me levaram a uma existência essencialmente masculina. E percebo, cada vez mais, as vantagens do meu estilo de vida.
Com o risco de soar machista (não que eu não seja), homens são mais legais. Homens fazem piadas inapropriadas, não se preocupam com a polidez do vocabulário e dificilmente vão te mostrar álbuns inteiros de fotografias de viagens desinteressantes para Bariloche. Homens não falam de cerimonialistas, da leveza dos arranjos de lírios do casamento da prima ou de, argh, o maldito Cirque du Soleil. Por mais imbecil que possa vir a ser o conteúdo de um diálogo grupal masculino – haja discurso elaborado sobre produtos intestinais -, sempre vai terminar em risada. Até porque toda discussão inevitavelmente termina com um maduro questionamento sobre a sexualidade alheia.
No ambiente profissional, trabalhar com homens tem lá suas – muitas – vantagens. Em geral mais pragmáticos – e recaio aqui sobre uma generalização, mas qual é a graça de ser sensata? – homens dificilmente vão exigir elaboradíssimas tabelas no Excel ou slides dançantes de PowerPoint. Um simples e direto ao ponto doc de Word, feinho e eficaz, faz o trabalho. O que muitas veem como desleixo, eu vejo como uma refrescante prova de que a pessoa está gastando mais tempo fazendo as coisas acontecerem do que enchendo-as de “frufrus” serifados. Sem contar que nada como um bolão-relâmpago da Champions League para aliviar um dia extenuante.
Admito que o papo de futebol fica meio exaustivo. Após anos de almoços discutindo (infrutiferamente) os mesmos assuntos – cada pênalti acaba em pelo menos umas três brigas envolvendo títulos estaduais e elucubrações sobre o real talento de Maradona -, às vezes bate saudade de comentar sobre a nova barba de Ryan Gosling ou falar maldades sobre a piriguete do lado. Além disso, ande com homens por tempo suficiente e você vai se ver afugentando perspectivos affairs com seus nada femininos arrotos audíveis e comentários nada polidos sobre as entradas (ui) violentas de Willians.
Nada, contudo, que não se dissipe quando aquele seu bróder, já meio altinho após uns chopes quentes, te dá um tapinha nas costas e fala, sem a falsidade que permeia um “querida” feminino, que você é simplesmente “o cara”. Ou quando ele te avisa, com uma delicadeza que amiga nenhuma vai ter, para pular fora do seu mais novo rolo porque o cara só quer te levar para a cama. Sim, eles são sujinhos, transpiram muito e muitas vezes mastigam a farofa de boca aberta. Mas são os caras. E eu sou um deles.




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