Fernanda Prates

Eu e os caras

Além do gosto pelas palavras e dedos dos pés irremediavelmente tortos, herdei de minha mãe um forte traço pessoal: a preferência pela companhia masculina. “Moleque” desde criança – quando adquiri o reprovável hábito de deformar minhas bonecas e um vocabulário de estivador refinado nos muitos torneios (vitoriosos, que fique claro) de totó – fui rumando, a vida inteira, para um convívio masculino. Tanto no lado pessoal – conto minhas amigas mulheres no dedo (sendo que as que eu gosto conto em dois) – quanto no profissional, tendo eu decidido que minha carreira seria com esportes. Amigos, lazer e profissão me levaram a uma existência essencialmente masculina. E percebo, cada vez mais, as vantagens do meu estilo de vida.

Fernanda Prates

Com o risco de soar machista (não que eu não seja), homens são mais legais. Homens fazem piadas inapropriadas, não se preocupam com a polidez do vocabulário e dificilmente vão te mostrar álbuns inteiros de fotografias de viagens desinteressantes para Bariloche. Homens não falam de cerimonialistas, da leveza dos arranjos de lírios do casamento da prima ou de, argh, o maldito Cirque du Soleil. Por mais imbecil que possa vir a ser o conteúdo de um diálogo grupal masculino – haja discurso elaborado sobre produtos intestinais -, sempre vai terminar em risada. Até porque toda discussão inevitavelmente termina com um maduro questionamento sobre a sexualidade alheia.

No ambiente profissional, trabalhar com homens tem lá suas – muitas – vantagens. Em geral mais pragmáticos – e recaio aqui sobre uma generalização, mas qual é a graça de ser sensata? – homens dificilmente vão exigir elaboradíssimas tabelas no Excel ou slides dançantes de PowerPoint. Um simples e direto ao ponto doc de Word, feinho e eficaz, faz o trabalho. O que muitas veem como desleixo, eu vejo como uma refrescante prova de que a pessoa está gastando mais tempo fazendo as coisas acontecerem do que enchendo-as de “frufrus” serifados. Sem contar que nada como um bolão-relâmpago da Champions League para aliviar um dia extenuante.

Admito que o papo de futebol fica meio exaustivo. Após anos de almoços discutindo (infrutiferamente) os mesmos assuntos – cada pênalti acaba em pelo menos umas três brigas envolvendo títulos estaduais e elucubrações sobre o real talento de Maradona -, às vezes bate saudade de comentar sobre a nova barba de Ryan Gosling ou falar maldades sobre a piriguete do lado. Além disso, ande com homens por tempo suficiente e você vai se ver afugentando perspectivos affairs com seus nada femininos arrotos audíveis e comentários nada polidos sobre as entradas (ui) violentas de Willians.

Nada, contudo, que não se dissipe quando aquele seu bróder, já meio altinho após uns chopes quentes, te dá um tapinha nas costas e fala, sem a falsidade que permeia um “querida” feminino, que você é simplesmente “o cara”. Ou quando ele te avisa, com uma delicadeza que amiga nenhuma vai ter, para pular fora do seu mais novo rolo porque o cara só quer te levar para a cama. Sim, eles são sujinhos, transpiram muito e muitas vezes mastigam a farofa de boca aberta. Mas são os caras. E eu sou um deles.

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Os estragos de sábado à noite

"Solteiro no Rio de Janeiro”. Este, muitos diriam, é o status supremo. Exemplo disso é o carnaval, quando é fofo compartilhar saliva com o maior número de estranhos possível. Mesmo que estejam usando saias emprestadas da irmã de 14 anos ou asas de fadinha (tendência masculina perturbadora que será discutida numa oportunidade futura). 
De fato, a ideia de solteirice numa cidade onde as pessoas abordam a vida com tanta liberdade, que acham OK usar chinelo fora de casa é tentadora. Porém, há  um lado menos glamouroso dessa vida. Mais do que morrer sozinho em uma casa cheirando a naftalina com 48 gatos, o maior terror da vida de um solteiro tem nome: sábado à noite.

Funny girl

“Mas o sábado à noite é o ÁPICE da vida de solteiro”, alguns diriam. De certo modo, sim. É quando ninguém te recrimina por ebriamente assumir sua quedinha por um jogador de futebol com tatuagem de Jesus no antebraço enquanto desce até o chão. Mas o que pouco se fala é que, para cada night incrível, há 200 desastrosas. Desde o drama que é encontrar um par que atenda aos padrões de qualidade de sua consciência (inversamente proporcionais ao álcool), à dor que é encontrar uma saia que não ressalte as “alcinhas do amor” nos culotes, é tudo muito exaustivo. 

Tal qual o lide jornalístico, a night envolve perguntas básicas. No caso, ONDE E QUEM? A combinação desses fatores cria o que chamamos de “a boa”. “A boa” envolve cálculos complexos. Uma “boa” lotada pode arruinar os planos de uma alma que, após passar três horas na fila de uma boate, já não tem mais condições de se sustentar em seus saltos gigantes-cos e, frustrada, dirige-se ao fatídico barzinho – e poucos sabem como dói terminar a noite, toda produzida, bebendo antártica quente no pé-sujo. Por outro lado, a visão de uma boate vazia é tão estimulante quanto a programação dominical do History Channel. É um equilíbrio delicado.

Para os homens, a arte da caça na night é um martírio. Imaginem “O Resgate do Soldado Ryan”. Pensem na cena da praia, com os soldados sendo abatidos um a um. Órgãos herniados, o ocasional cérebro explodindo. Segundo relatos masculinos, esse é o nível de brutalidade de uma boate de classe média carioca. As garotas, em geral, dividem-se entre as lindas que se acham intocáveis (dão foras automáticos enquanto aguardam Rodrigo Hilbert) e as OK, que se acham lindas (e dão alguns foras antes de se conformarem). Todas com seus rifles carregados, prontos para disparar os sempre dolorosos “tocos”.   

Para as mulheres, é outro drama. Você quer estar rodeada de pessoas bonitas – afinal, gente feia se vê na rua -, mas não a ponto de ofuscar. Poucas nutrem a ilusão de ser “a mais gata”, mas você almeja ao menos um Top 20. Todas as garotas, aliás, se in-cluem no Top 20. Alguém VAI chegar em você – raramente alguém que você curta. Então é uma questão de ajustar as expectativas (e a vodca). E de não ter amigas muito bonitas, claro.

Na verdade, em tempos de redes sociais, a vantagem inegável da solteirice é encher seu facebook de imagens da sua aparente diversão para que seus amigos comprometidos, confortavelmente aconchegados com seus respectivos, invejem sua liberdade. No dia seguinte, com sorte, você não se lembrará de nada e olhará com carinho para as fotos, pensando “puxa, que noite incrível eu tive”. E fará tudo de novo.

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O efeito BBB

BBBPassadas as hostilidades do Campeonato Brasileiro, o país entra em outra já tradicional era negra em termos de convívio cordial entre os cidadãos: o Big Brother Brasil. Ao contrário do futebol, que democratiza o caos dividindo-o entre diversos times, o BBB opõe a sociedade entre dois macrogrupos. De um lado, os que assistem (mesmo que em segredo), enquanto gente gata bota a dignidade pra jogo em troca de fama, dinheiro e programas de pornô softcore no Multishow. Do outro lado, ficam os que não assistem – e, por consequência, fazem questão de alardear seu repúdio sempre que têm a chance. Assim como o Flamengo e uvas passas, não há atitude indiferente em relação ao BBB. Ou você curte ou você faz questão de garantir que aqueles que curtem se sintam constantemente culpados por fazê-lo.

Em tempo: isto não é um texto de defesa do BBB. Ou de ataque, muito menos. Doze temporadas depois, basicamente tudo que havia pra ser dito já foi. Longe de mim entrar no debate Michel Telonesco do “pode-se ou não criticar um produto tão popular” porque, né, não tenho nem roupa pra este tipo de intelectualização circular. Meu grande problema é com o irritante efeito autoengrandecedor que o simples ato de NÃO curtir o BBB parece causar no cérebro do indivíduo. Como um selo de aprovação intelectual que garante que aquele cara – o mesmo abnegado que estava compartilhando posts do “humor no Face” em seu perfil pessoal – está alguns degraus acima de nós, apreciadores do bom e velho barraco, na escala evolutiva.
Nós, espectadores descompromissados de BBB, sabemos como é difícil admitir o hábito em um contexto social. Sempre haverá um chato para nos banhar em julgamento silencioso, refocilando-se em toda sua intelectualidade. Em meu próprio lar, vejam vocês, fui vítima do preconceito. Minha mãe, sempre vigilante quanto a isso – nunca tive uma roupinha das Chiquititas e fui veementemente proibida de fazer aula de lambaeróbica no auge de meus 9 anos – não tolera BBB no lar. Resmunga, faz cara feia, fala que “pagou caro por nossa educação” e não merece tamanha futilidade. Nada contra minha inteligentíssima progenitora – hoje até aprecio o fato de nunca ter tido um shortinho do “É o Tchan” –, mas eu não adoto a mesma postura quando é ELA que está muito entretida assistindo a “Cãobelereiros” no sábado à tarde. Porque, veja bem, se é em inglês a gente acha lúdico. O que não pode é Rede Globo.
Criticar um produto cultural – e eu já disse isso mais de uma vez – é saudável, frutífero e bastante divertido. O que é enjoado é tratar os outros como seres piores porque curtem “entretenimento menor” enquanto você, sr. intelecto, estava mandando toda a vizinhança #chupar após um gol do Dedé. Se você não consegue apreciar a beleza de Marcelo Dourado usando o PODER SUPREMO, ou ainda a graciosidade de um exaltado Aírton revoltando-se contra a sunguinha branca de Diego Alemão, posso apenas lamentar. Afinal, gosto é uma coisa tão particular que até Bjork vende CD. Mas, da próxima vez que parar pra assistir ao stand-up do Danilo Gentili, ou quem sabe aquele FILMAÇO do Rob Scheimder, lembre-se de remover o selo de aprovação intelectual por alguns minutos. E cuidado, porque perde a cola.  

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Torcedor 2.0: a última fronteira

Prates 2O torcedor - e isto é uma das mais antigas verdades da cultura nacional - não é um ser essencialmente amistoso. E digo isso como parte desse contingente. Um clássico é capaz de reduzir o mais eloquente catedrático a uma amálgama de ofensas e grunhidos ininteligíveis que, aliados a uns chopes e um pênalti, tornam-se verdadeiras armas de agressão verbal. Quem já se permitiu sofrer pelo time do coração sabe que os conceitos de racionalidade e título não andam de mãos dadas. Até aí, tudo bem. O bom e velho bate-boca de fim de domingo é, se não essencial, no mínimo aceitável dentro das regras de convívio do brasileiro. O problema é que, de uns anos para cá, as rusgas do ludopédio extrapolaram os limites do botequim e se instalaram – como tudo que há de pior do mundo – no inesgotável universo das redes sociais. E é aí que nossa frágil compaixão pelo amiguinho vai de vez para o vinagre.

Dia 4 de dezembro, última rodada do Brasileirão. Entre o Vasco e o título, dois imperativos: uma vitória do Palmeiras sobre o Corinthians e, é claro, uma derrota do grandessíssimo Mengão (sintam a sutileza). Alerta vermelho. Este é o tipo de situação na qual nenhum carioca nutre esperanças de andar pelas ruas sem se deparar com caos, violência ou pior: hordas de pré-adolescentes inebriados. A solução lógica: ficar em casa. Para que ir para o apartamento do seu tio vascaíno apenas para ouvi-lo, entre cuspes de linguiça, negar seu sexto título - enquanto você se limita a murmurar “vice” várias vezes como uma criança com síndrome de Asperger? Anos atrás, a dor poderia ser evitada com o simples ato de se trancar em casa e, por precaução, tirar o telefone do gancho. Não mais.

Isto porquPrates 1e, não importa o que você fizer, ALGUÉM em ALGUM lugar vai ter palavras hostis para dizer e - o mais importante - um meio de publicá-las. Pode ser a Carol, aquela estudante da PUC que dá um tempo no estágio apenas para xingar a “mulambada” no Twitter com fundo da Hello Kitty. Ou o Marcão, aquele cara gente boa de TI que sempre conserta seu PC, mas não tem nenhum problema em te mandar #chupar suas partes íntimas. Até aquele primo meio gênio, que saca tudo do comportamento dos polímeros, parece incapaz de aceitar a realidade do impedimento – não importa quantos ângulos a câmera da Globo encontre para prová-lo. Não importa se o erro foi do juiz, do jogador ou do tempo: VOCÊ vai ser xingado.

O torcedor é hostil. E ele encontrou no Facebook ou no Twitter ambientes férteis para não só extravasar a angústia, mas como encontrar outros que a endossam. Ser torcedor é ser sofredor. Mas ser acordado no meio da noite com um alerta do celular para descobrir que aquela tia que você nem sabia que ainda estava viva te marcou numa publicação envolvendo a Família Dinossauro e o eterno vice do Vasco é realmente um novo nível de violação. Torcer é bom, xingar é saudável e brigar por pênalti tem todo aquele apelo vintage. Mas bem que o pessoal podia pensar um pouco antes de apertar o enter. Ou estender toda essa criatividade para outros campos. Afinal, um povo capaz de criar ofensas tão elaboradas do dia para noite já deveria ter, no mínimo, desenvolvido uma vacina definitiva para a gripe comum.

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Bebês: “Adoráveis” criaturas

BabyMuitas atitudes podem resultar em olhares atravessados da sociedade. Não ceder o lugar no metrô para velhinhos, molhar pedestres com o carro, dar nota de  R$ 50 para o trocador... Mas nada parece despertar tanto repúdio social quanto o ato de não retribuir a atenção de uma criancinha sorridente. Na visão geral, não sorrir quando uma pequena criatura sorri para você corresponde a um atestado instantâneo de (falta de) caráter. Por que, perguntam-se pais afetuosos, alguém NÃO quereria dedicar tempo a esse adorável prolongamento de meu código genético? Querido genitor, falo em nome da oprimida minoria quando digo que nós, os não admiradores de bebês, temos nossos motivos.

Primeiro, deixo claro que “não curtir” bebês não significa ter algo CONTRA eles. Digo, eu realmente não vejo motivos para odiar inocentes reservatórios de baba, choro e cocô. Não é culpa deles. Eles são crianças, inocentes e puras e tudo o mais, e todos fomos assim um dia. O problema dos bebês tem nome: mãe. Bebês não se impõem sozinhos. Os coitados não têm controle das funções da bexiga, quanto mais noções de convívio social. Mas parece inconcebível para uma mãe que alguém simplesmente não se interesse pelos movimentos intestinais de sua prole. Eu sinto estourar a bolha, mas... Não nos interessamos. De fato, não estamos nem aí.
Assim como crianças se recusam a comer rabanete quando forçadas, acho difícil apreciar um bebê quando me enfiam ele goela abaixo. Uma recém-mãe não parece perceber que talvez tenhamos coisas melhores a fazer do que olhar para 87 fotos idênticas de uma criancinha comendo sua primeira goiaba. Isso se aplica ao primeiro mamão ou a primeira fantasia de Jasmine. Claro que sorrimos quando você abre o seu iPhone para mostrar o play-by-play do jantar do Pedrinho, mas há muito mais pânico escondido naquele sorriso do que você imagina. Chama-se educação.
E nem venham me julgar, pois as próprias mães muitas vezes demonstram moral questionável. Não em relação ao próprio bebê, claro, mas ao dos outros. A maldade intramãe, meus amigos, é uma coisa assustadora. A mãe da Gabi, veja você, é a primeira a zoar discretamente a pequena Giovanna por ainda não saber amarrar os cadarços. A mãe do Marcelinho só espera a mãe do Gabriel virar as costas para falar que o coitado tem os olhos caídos do pai. Para mãe, o cocô do filho não fede. E é assim que tem que ser. Só não espere que eu queira dar uma cheiradinha.
Vocês certamente estão me achando terrível, mas eu juro que não é de maldade. Eu não odeio bebês. Eu simplesmente não me divirto perto deles. Assim como não me divirto em filmes do Peter Jackson ou em boates de hip hop. E, portanto, prefiro dedicar meu tempo a outras tarefas. E, por favor, não me venha profetizando que “isso tudo mudará quando eu tiver filhos”. Não quero tê-los nunca. Até porque, imaginem só esta minha personalidade terrível se propagando por aí? Penso nisso como minha contribuição para um mundo melhor. E um pouco menos barulhento.

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Meu iPod in Rio

Mais do que entupir o trânsito e expor subcelebridades bêbadas ao ridículo na TV, eventos como o Rock in Rio têm a mágica propriedade de criar especialistas instantâneos. Que o digam as redes sociais, entulhadas com opiniões, comentários e - é claro - mais reclamações do que consultório de ortopedista geriátrico em dia de bingo. Do line-up às setlists, da bagaceira de Ke$ha à pasmaceira de Beto Lee, nada escapou do escrutínio dos críticos/fashionistas/chatosparacacete. Até aí, tudo certo. Afinal, o que é o Twitter se não um site de chororôs coletivos? O azedume é um direito inalienável do cidadão. O chato é quando o senso crítico se torna mais uma vitrine para a exposição de nossos preconceitos. E, minha nossa, como eles são numerosos.

RockUma vertente de reclamadores-chatos tem origem semântica. É a patrulha do rock. Para eles, o fato de o nome do festival ser “ROCK in Rio” automaticamente exclui artistas de outros estilos – independentemente de sua relevância. São eles que curtem choramingar de Katy Perry e Rihanna à autozoável Claudia Leitte (muito chique com seus dois Ts). Deixemos de lado que o pop está presente desde a primeira edição do festival (vide Al Jarreau, Erasmo Carlos, B52s...) e nos foquemos em outra particularidade desse discurso: a inconsistência. Reparem que os rock nazis de ontem são os que reclamam de Detonautas e Evanescence hoje. Ué, mas não é tudo “rock”? Sim, mas aí entramos no mérito do rock DIGNO. Também conhecido como “BANDA QUE EU GOSTO E QUERO VER E DANE-SE TODO MUNDO”. Um exercício interessante é propor que esse mesmo patrulheiro crie um line-up de cinco dias só com as bandas DIGNAS para ver o que sai. Meu palpite? Não sai. Mas tente você em casa.

Dos chatos semânticos, vamos aos chatos generalistas. Eles simplesmente entendem tudo que há para ser entendido sobre música e shows e tudo mais. São talentos desperdiçados pela indústria musical, coitados. Interessados no valor artístico - geralmente inversamente proporcional ao número de CDs que o artista em questão vendeu -, eles SABEM que a quadragésima nona banda do Camelo, aquela que tocou uns 16 hits que ninguém conhece, devia ter tocado no Palco Mundo, enquanto - e lá vai a coitada de novo - Claudia Leitte devia ser banida do festival. Aliás, do mundo. O motivo? Claudia Leitte é RUIM. E pouco importa no que essa informação é baseada. E daí que vendeu milhões de CDs e mobiliza plateias. O que importa é que o refinadíssimo gosto dos bastiões culturais da humanidade não tolera axé, oras.

O problema, novamente, não é a crítica. Ela pode ser saudável e pertinente. Do embaraçoso Multishow (e a equipe mais sem jeito da cidade) à esquizofrenia dos line-ups (que prejudicaram artistas como Elton John), tudo é passível de ser analisado e, por que não, devidamente xingado-muito no Twitter. O que incomoda é quando a crítica esconde um julgamento preconceituoso, fruto da mesquinha imposição do gosto próprio. Os patrulheiros são como criancinhas detestando o filme que os pais estão vendo só porque não é um episódio de Bob Esponja. O festival é “Rock in Rio”, não “INSIRA AQUI O NOME DO RECLAMÃO in Rio”. A ideia é atender ao público de massa, não a seu iPod. Conviva, nobre patrulheiro. E, por favor, use fones de ouvido.

fernandapratesferreira@gmail.com

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Ao Facebook, com carinho

No que você está pensando agora? “Bem, Facebook, estou pensando que você não deveria nunca ter perguntado isso. E, já que estamos sendo francos, tenho umas verdades para te contar. Embora reconheça em você  uma rede linda, que tenha me ajudado a reencontrar amigos, conhecer outros e até a arranjar emprego, ultimamente tenho me irritado muito contigo. Você sabe que te amo e que nunca conseguiria te largar, mas ainda me pego desejando que você sumisse por um dia ou dois. De leve. Só para que a raiva passe e possamos trabalhar juntos neste nosso relacionamento difícil. Quero que a gente funcione, e por isso vou abrir meu coração aqui para você, OK?

Facebook coluna Mesmo que eu pareça uma velha amarga ou uma criancinha mimada, acho que está na hora de confessar minhas aflições. E você vai ter que prometer que não vai me achar uma pessoa pior por isso, tá? Sei que o problema não é exatamente contigo – e sim com o uso que as pessoas têm feito de você. Sei que você é democrático e que parte da sua magia é permitir que todos compartilhem, mas... Você não acha que é conivente demais? Sei lá, fácil demais?  Você não se sente nem um pouco incomodado com o quanto as pessoas abusam de sua boa vontade e se tornam simplesmente... Irritantes?

Por exemplo. O Rio é quente desde sempre, mas parece que há um grupo de pessoas permanentemente surpresas com isso. Todos os dias, lá estão elas, constatando que está quente e fazendo aquela piadinha bem original (só que ao contrário) do “Hell de Janeiro”. Pode admitir, cá entre nós, que isso te incomoda... Vai me dizer que você não gostaria de botar um filtro nessas coisas? Ou de proibir que terceiros apertassem o botão de “curtir”? Porque quem “curte” o crime é cúmplice. Pior é quando o tempo vira. E todo mundo comenta que está chovendo. Como se não tivéssemos janela em casa. Novamente: sei que a culpa não é sua. E existe a tal “liberdade de expressão”. Mas irrita, Facebook. E é esse tipo de coisa que deteriora nossa relação.

Já que estamos sendo francos, confesso que outra coisa que vem me incomodando é isso do povo botar “corrente” no mural. O mural é delas – e as correntes também -, mas você não acha chatíssimo quando a bilionésima quarta pessoa cola aquela exata mensagem-clichê estilão Augusto Cury e conclui com um “se você ama sua mãe, cole isso no seu mural”, ou “se você teve uma boa infância, compartilhe”? Você não acha isso meio coercitivo? Sabe, amo muito minha mãe e, apesar dos quilos a mais e do aparelho dentário, cresci de maneira decente. E ainda assim não quero colar as mensagens no meu mural. Você acha que isso faz de mim uma má pessoa, Facebook?

PRONTOFALEI, diriam seus usuários. Posso ter soado meio hostil, mas mamãe diz que sinceridade é o segredo de qualquer relacionamento – e você não é justamente uma rede disso? Admito que você é bem nobre em vários sentidos. Você me deixa reclamar, também. E falar bobagens. E reclamar de quem reclama e fala bobagens. Você vai, inclusive, me deixar compartilhar essas bobagens que estou falando agora. E, como se não bastasse, ainda me dá a opção de simplesmente ocultar aqueles que me irritam demais. Sabe, Facebook, somos bons amigos. O inferno (como sempre) são os outros.

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Entre socos e beijos (na lona): como me apaixonei pelo MMA

Então tu curte esses maluco suado de sunguinha (sic) se agarrando no chão?”. Você, leitor, suponho que esclarecido, pode achar essa frase meio idiota. Eu, que embora pouco esclarecida até me esforço, também acho. Mas, por incrível que pareça, é o que mais escuto quando revelo minha paixão por um esporte controverso: o MMA. O antigo “vale-tudo”, no qual hoje em dia vale até bem pouco se você parar pra ler as regras. Apesar de achar que o abnegado que produz uma frase dessas tem uma clara deficiência de senso de humor – e proteína animal na dieta - compreendo o porquê do estranhamento. MMA, à primeira vista, parece mesmo meio esquisito. E, considerando os socos, chutes e eventual esguicho de sangue, parece ainda mais esquisito que uma garota possa se apaixonar por ele.

MMA

É difícil falar sobre paixão. Primeiro que o próprio termo é brega – vejo logo a imagem de um marmanjo sem camisa e longos mullets loiros na capa de um romance/pornô da meia-idade de Danielle Steel. Segundo que paixão já pressupõe certa irracionalidade (vide o famigerado botafoguense que tatuou a cara do Loco Abreu nas costas). Mesmo assim, tento explicar como o MMA se tornou a segunda maior paixão da minha vida (sorvete Itália de brownie ainda reina absoluto no primeiro lugar).

Começou há uns dois anos, quando entrei para o boxe tailandês. Ágil como um bebê hipopótamo de botas ortopédicas, achei que, vendo lutas, poderia lutar melhor. Não foi o caso, claro, mas meus hematomas serviram a um propósito. Pouco depois, lá estava eu comprando canal de luta, criando blog, participando de podcast e matando fósseis acadêmicos de desgosto com uma monografia sobre o assunto. Curiosa (entende-se completamente aterrorizada), mamãe foi consultar (alertar) o resto da família sobre meu novo interesse “peculiar”, e descobriu que a senhora minha bisavó nutria um amor pouco saudável por boxe. Nasci assim, meio predisposta.

Herança genética à parte, a verdade é que quem assiste a uma luta fica intrigado. O intrigado uma hora fica curioso. O curioso tende a virar interessado. A partir daí, é um passo para o apaixonado. E o negócio com qualquer esporte – e mais ainda no caso de um versátil como o MMA –, é que a paixão te pega em várias frentes. Há quem se apaixone pela imprevisibilidade (entre cruzados, chaves-de-braço e a terrível qualidade dos juízes, não dá para prever nada). Há quem curta o show, aquela megalomania de holofotes e músicas triunfais de entrada. Há quem ame a franqueza de um cara querendo mostrar que é melhor que o outro. Ou a dedicação de dois atletas de alto nível que respiram seu ofício. Há quem veja beleza no primitivismo de dois homens se batendo. Há quem ame a inteligência envolvida naquela batalha mental. Há quem aprecie a estratégia. Há quem queira simplesmente ver o pau comendo doido. Há quem só queira xingar muito no twitter.

E há aqueles, como eu, que amam muito tudo isso. De intrigada a aficionada, continuei apaixonada após a faísca inicial e aprendi a amar este esporte assim, do jeitinho que ele é. Sei não, mas acho que isso é amor de verdade. Tipo sorvete de brownie.

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