Cães sem coleira causam transtorno na região. Moradores relatam ataques e dificuldade na travessia
Já tem até gente carregando barra de ferro para se proteger dos cães sem coleira que andam soltos pelo Bosque. Os relatos de ataques chegam até a caixa de e-mails do jornal com a mesma frequência que os donos de rotweillers e pitbulls soltam os seus animais pelo local. Moradora da região há quatro anos, Vanessa Norcia Serrão, que costuma caminhar com os seus dois galgos italianos, sempre na coleira, relata o caso de um senhor que passeava com dois bacês pelo Bosque. Ao avistar um pitbull solto, como defesa, ele puxou rapidamen-te uma barra de ferro. que carregava à cintura. O dono do pitbull sacou um revólver e disse: “Se senhor tem uma barra de ferro, eu tenho uma arma de fogo”.
A versão de Vanessa é confirmada pelo vice-presidente cultural da associação que cuida da manutenção do local, a ABM. “Esse senhor chegou a dizer que quem avançar em cima dele será morto”, conta Roberto Barboza. “É uma situação superchata. Eu já me deparei com dois cães pretos, enormes, que ameaçaram me morder. Fiquei parado quando senti que eles não me atacariam. Mas, se fosse minha esposa, teria corrido, o que provavelmente seria pior”, diz ele.
Outra moradora, Luiza Andrade relata a sua insatisfação com a situação: “Estava com pressa, precisava sair para o trabalho, mas levei, pelo menos, dez minutos esperando que um doberman terminasse o seu passeio”.
Já Aretuza Pires gastou uma grana alta no veterinário recentemente. Ela conta que o seu labrador foi atacado por outro animal, da mesma raça, que andava solto pelo lugar. “Os dois se machucaram. Fora o susto, gastei bastante dinheiro para cuidar do problema. Todos nós, donos de animais, deveríamos saber que encontro de machos sempre acaba em briga, especialmente se não forem castrados”, alerta Aretuza. “Depois desse incidente, o meu cachorro ficou paranóico. Agora, sempre que vê um outro cão do tamanho dele, fica latindo como um maluco”
“Foi mais fácil lidar com leões”
Apaixonada por animais, Vanessa Serrão chegou a fazer um trabalho voluntário com leões e tigres no Seaview Lion Park, em Port Elizabeth (África do Sul). Responsável por alimentação, lazer, interação com o público visitante, manutenção do local de trabalho, observação e estudo do comportamento dos animais, ela sentencia: “Foi mais fácil lidar com leões do que com essas pessoas”.
Frequentador há 11 anos do lugar (a mesma idade do seu labrador mais velho), Angelo Barata reclama da desativação do ponto que era reservado a cães. “A Calçada Empreendimentos nos despejou de lá para a construção do Palace 3”, diz ele.
Outro visitante assíduo do Bosque, Henrique Buritty, que passeia sempre por ali com um daschund (salsicha) e um vira-lata, também mostra insatisfação com a falta de um espaço exclusivo para os cachorros. “Gostaríamos de ter uma área nossa. Os tenistas, futebolistas e os nadadores têm. Antes da Calçada chegar, os skatistas também tinham. Garanto que existem mais donos de cães do que jogadores de tênis e que o custo de manutenção de uma área cercada para os animais é muito menor do que manter aquecida uma piscina”, comenta Burity, que também mostra insatisfação com a postura da associação do Bosque. “A ABM nos deu um terreno baldio, sujo e sem iluminação. A cerca tinha buracos por onde fugiam os cachorros. Depois passou a fechar esse terreno a noite. Para concluir, entregou a área para a Calçada usar de canteiro de obras”, completa.
“Mesmo com o espaço cedido para os cachorros, os donos de cães sempre deixaram os animais soltos pelo Bosque”, defende-se o vice-presidente administrativo da ABM, Amaury Martins. Segundo ele, a mudança do local do cachorródromo é provisória. “Não havia outra alternativa, já que a prefeitura concedeu a licença da obra para a Calçada. Imagina o caos no trânsito se esses cami-nhões entrassem pela Henrique Cordeiro? Ou pelo Bosque, im-pedindo a passagem das pessoas?”, questiona.
Burity acredita que os cães precisam ficar soltos para manter sua saúde física e mental. “Além disso, queremos uma área nossa e queremos orientar a sua construção. Não basta colocar uma cerca e achar que disso se fará um cachorródromo”, afirma o mora-dor, admitindo que anda com os seus cachorros na coleira até certo ponto e, depois, costuma soltá-los.
Angelo também dispensa a coleira com os seus cães. “Eles já têm idade, são calmos e obedien-tes, não atacam pessoas ou outros cães. Mas procuro respeitar quem sente medo de cachorro. Quando noto que o pedestre está temeroso, chamo meus cachorros para perto de mim. Posso garantir que são poucas essas pessoas”, garante ele, lembrando que alguns pais levam seus filhos para brincar com os cães. “Ficamos muito felizes quando isso acontece. Tinha um pai que levava o filho, com cerca de 2 anos, no carrinho, com um saco de biscoito canino. O garoto se esbaldava alimentando os animais e nunca sofreu sequer um arranhão”.
Vanessa conta, porém, que uma menina escapou por pouco de sofrer bem mais do que um arranhão no local, recentemente, quando um cão de grande porte pulou em cima dela. “Fora o susto, felizmente nada aconteceu. Se fosse minha filha, tinha chamado a PM, pois é lei manter o cachorro na coleira”, observa Vanessa, que, ao deixar o parcão dia desses, livrou os seus cachorros de serem atacados por outro cão grande, solto, que estava no local. “Tive que puxá-los pela guia para o meu colo. O dono do cachorro foi irônico e rolou uma discussão terrível. Disseram-me que esse mesmo cão já atacou outro, mas o dono continua deixando ele solto”. Segundo Vanessa, a maioria dos donos de cães que passeiam pelo Bosque têm uma história para contar ou foram vítimas de um ataque de cachorro.
“Proibida a entrada de pessoas”
O assunto é antigo. Em outubro de 2001 esse jornal já havia feito uma capa que mostrava um pit bull na entrada do Bosque. Acima, uma placa anunciava: “Proibida a entrada de pessoas”. Na reportagem, o criador de cães Anderson Einsteinn dizia que “Andar com um animal sem coleira é tão absurdo quanto uma pessoa andar sem roupas”. Em setembro de 2002, um jovem mandou o seu bull terrier atacar um vigilante da ABM. Na época, segundo o segurança, ele foi chamar a atenção do rapaz que estava fumando maconha no Bosque. O homem atacado pelo cão foi parar no hospital. O caso foi registrado na 16ª DP e estampou a capa da edição 52 da Folha do Bosque.
Recorde a íntegra das reportagens clicando aqui.
Moradora ameaça entrar na Justiça
Praticamente todos os dias que passa pelo Bosque, Luiza Andrade conta que se depara com cachorros grandes e perigosos soltos e sem focinheira. “Os incidentes são frequentes e o cidadão precisa desviar o caminho ou parar e aguardar o cão sair”, conta ela. “Exijo providências imediatas da administração do local, pois é lei em todo lugar essas feras andarem presas, principalmente num lugar como o Bosque. Aguardo as medidas. Caso contrário, vou à Justiça. Não vou tolerar ter que arriscar a minha segurança por causa de algo tão óbvio e primário”, finaliza a moradora.
O que diz a lei
Não se pode andar com o cachorro em via pública ou em quaisquer outros lugares públicos sem açaimo (cabrestilho que se aplica ao focinho dos animais - sobretudo dos cães - para impedi-los de morder ou de comer; focinheira, mordaça funcional), exceto se o levar preso por uma trela (Decreto-Lei nº 314/2003, de 17 de dezembro de 2003, art.º 7º).